quinta-feira, 16 de junho de 2016


Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.
 
Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.
 
Existem várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nos pensarmos como sujeitos históricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.
 
A modernidade não é uma porta apenas feita pelos outros. Nós somos também carpinteiros dessa construção e só nos interessa entrar numa modernidade de que sejamos também construtores.
 
No início, viajávamos porque líamos e escutávamos, deambulando em barcos de papel, em asas feitas de antigas vozes. Hoje viajamos para sermos escritos, para sermos palavras de um texto maior que é a nossa própria vida.
 
A palavra “ler” vem do latim “legere” e queria dizer “escolher”. Era isso que faziam os antigos romanos quando, por exemplo, selecionavam entre os grãos de cereais. A raiz etimológica está bem patente no nosso termo “eleger”. Ora o drama é que hoje estamos deixando de escolher. Estamos deixando de ler no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objecto de apelos que nos convertem em números, em estatísticas de mercado.
 
Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa identidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, mas o mais triste é ter mesmo que escolher.
É verdade que as novas tecnologias não costuram os buracos da nossa roupa interior, mas elas ajudam a alterar as redes sociais em que nos fabricamos.
 
(Trechos extraídos da versão em PDF do livro “E se Obama fosse africano” do escritor Mia Couto – Disponível na internet via Companhia das Letras)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Veículo: DIARIO DE PERNAMBUCO

Editoria: Política

Tipo: Matéria

Autor: Víctor Macário

Data: 10/06/2016

Assunto: TRANSPARÊNCIA, PERNAMBUCO, MPF



Recife entre as melhores


O Ministério Público Federal (MPF) divulgou, na última quarta-feira, os resultados atualizados do Ranking Nacional de Transparência - a primeira avaliação foi feita durante o período de setembro e outubro do ano passado. De lá pra cá, a Prefeitura do Recife subiu da oitava posição para a primeira, dividindo o posto com outras três gestões de capitais e sendo a melhor colocada entre as do Nordeste. Porém, o resultado positivo da capital não foi suficiente para melhor a condição das cidades do estado em geral, que, em média, regrediu de 12º para 22º no quesito transparência. Entre os estados, o governo de Pernambuco pulou de 13º para 11º.

A prioridade do sistema de pontuação está nas informações disponibilizadas no portal da transparência, ferramenta online que facilita o acesso do cidadão a informações sobre a gestão das contas públicas. Para isso, a avaliação da MPF leva em consideração a transparência ativa - disponibilizada por iniciativa do próprio governo - e a transparência passiva, que é a solicitada pela população junto ao governo.

O controlador-geral do município, Rafael Figueiredo, conta que a primeira avaliação do MPF, no ano passado, abriu os olhos para algumas carências do Portal da Transparência do Recife. “Desde então, adicionamos organogramas de todas as secretarias e órgãos, motivações de deslocamentos e outros dados estatísticos”.

Figueiredo também comenta que analisando o perfil das pessoas que transitam pelo portal e as demandas, eles encontram formas de melhorar o acesso à informação. “Essa análise serve para balizar o sentimento da sociedade, principalmente na transparência passiva, que ajuda a identificar quais são as informações que a população mais busca”, diz.

Para aplicar essas melhorias, Figueiredo revela que se espelhou no próprio site do MPF, além de todos os portais do Brasil, incluindo os do governos estaduais.
OS PÁRIAS DA SOCIEDADE
Victor Hugo - Foto Internet

Em toda parte os párias andam a sós. São os miseráveis que o mundo venceu e tomou-lhes as oportunidades de sobrevivência. Reúnem-se em maltas de criminosos e farândolas de tristes; assustadiços, fazem-se agressivos, no país do esquecimento onde estabelecem morada. São os que tiveram negado o direito de viver, conquanto sejam os frutos amargos da árvore da sociedade malsã.

Os párias não têm nomes, usam apenas uma designação a que se acostumaram a responder. Sua família são os encontros fortuitos, seus amores a aventura amarga, suas paisagens as sombras das pontes, as margens dos rios, os pântanos e as palafitas, os morros e as favelas, donde espiam, filosofando com o cinismo da miséria, os outros...

Mas, esses são os párias econômicos, os abandonados sociais.

Os outros, os párias de luxo, esses brilham na ilusão e se refestelam no conforto em que amolentam o caráter, já debilitado, e esfrangalham as esperanças frouxas dos outros párias, tomando-lhes, ou, para ser exato, roubando-lhes os direitos humanos que também deveriam ter, mas não têm. Aqueles, os párias por falta de dinheiro e família, são chamados “chagas sociais”, mas os outros, os que fulguram em manchetes de jornais, não têm epíteto, porque não há substitutivo para a expressão câncer moral.

Onde estes últimos estão, são eles que têm a miséria e fomentam-na, proclamam acusações contra a impiedade e são os responsáveis pela criminalidade de vário porte, enjaulando nas próprias garras a justiça que os não alcança nos crimes violentos que praticam com as mãos enluvadas; são os que se utilizam das leis em falência para cercear a liberdade daqueles que já são prisioneiros de si mesmos, mas paredes sujas da infelicidade, e trancafiá-los nos cárceres onde colocam guardas armados, fazendo que os carcereiros, que os espionam e sobrecarregam de injúrias, não passem, afinal, de prisioneiros que tomam conta de outros prisioneiros.

Muito maior do que se pensa é a legião dos párias.


Enxameiam nas vielas sórdidas das cidades e nos casebres das vilas ao abandono, inundando, também, os palácios e os apartamentos onde vivem os homens de alto coturno, em cujas existências a degradação fez morada, e de onde a vergonha, por não suportar o assédio da imundície moral, foi expulsa, enxovalhada, a pedradas de ironias e desdém... Fugindo de si mesmos, são incapazes de fitar-se no espelho da consciência, esses párias do poder temporal, que mergulham nas drogas alucinantes para sonhar o pesadelo da mentira que os asfixia, empedernindo-lhes os sentimentos e vencendo neles as mínimas expressões de humanidade.

Há porém, os párias em redenção.

Sofrem e choram, embrulhados no manto da dor e da soledade, expurgando-se, para galgar a montanha da sublimação, após a demorada marcha pelo charco das paixões em superação. Párias pela ausência de luz, que somos quase todos!

A maioria desses párias atua rebocando-se nas misérias sociais e morais em que se abastardam cada vez mais, aprofundando feridas que só o escoar dos séculos pungentes poderá cicatrizar. Outros, porém, sorvem as fezes da aflição corretiva, para retornar aos ninhos da luz donde se evadiram entorpecidos pela loucura do descuido, fugindo às Leis do Divino Estatuto. Impossibilitados de crescer pelo método da razão que conduz, marcham empós da libertação na galé da carne, impedidos de piorar a própria situação.

Ninguém alcança o Reino do Céus senão após o pagamento da dívida, em totalidade de resgate. Mas, ninguém se desata da mãe-Terra sem reequilibrá-la nas leis de harmonia mediante as quais ela também progride. Todo infrator, que a desorganiza, imanta-se-lhe no seio e vincula-se-lhe na constrição evolutiva de repetir o trabalho redentor até que ela se refaça dos atentados, voltando a governá-la a ordem, em ritmo de equilíbrio.

Os párias em redenção sublevam-se, às vezes, mas, aves impossibilitadas de voar, vigiadas pelo falcão do sofrimento, que as espia com agudos olhos, arrastam-se na ascensão e só a pouco e pouco galgam os alcantis donde um dia poderão desprender-se, na direção do infinito azul do Cosmo.

(Espírito de Victor Hugo - Médium: Divaldo P. Franco - Obra: Párias em Redenção)

quinta-feira, 9 de junho de 2016





"A emoção é o fenômeno mais democrático da existência humana: quanto mais irrigamos a emoção dos outros, mais expandimos nossa capacidade de nos encantar com a vida; quanto mais agimos como embaixadores da paz, mais a conquistamos para nós mesmos. Por outro lado, quanto mais promovemos intrigas, discussões e conflitos, mais nutrimos nossas armadilhas mentais, mais fomentamos nossa ansiedade e nosso mau humor".

(Livro Gestão da Emoção, Augusto Cury).

"Emotion is the most democratic phenomenon of human existence: the more irrigate the emotion of others, the more we expand our ability to charm us with life, the more we act as ambassadors of peace, the more we won for ourselves On the other hand,. the more we promote intrigues, discussions and conflicts, the more we feed our mental traps, more we foster our anxiety and our bad mood. "

quarta-feira, 8 de junho de 2016

"Quem não exercita a auto-consciência vive a pior de todas as solidões, a solidão à qual ele mesmo se abandona. Caminha sem metas, fadiga-se sem propósito, navega sem direção no oceano da existência.Não sabe minimamente aonde quer chegar como profissional, parceiro, educador, nem como ser humano.
Quem não treina a autoconsciência não se questiona, não desenvolve consciência crítica nem dá sentido à sua existência; torna-se um zumbi social, facilmente manipulável, adestrável ou encarcerado por seus fantasmas mentais ou por ideologias radicais"
(Autor Augusto Cury, no livro Gestão da Emoção).

terça-feira, 7 de junho de 2016

 
  
Claudia Dias Batista de Souza é o nome de batismo da Monja Coen. Antes de se tornar a mais famosa praticante e líder budista do Brasil, ela foi gente como a gente – talvez até um pouco mais louquinha. Prima de Sergio Dias e Arnaldo Batista, dos Mutantes, Coen foi casada algumas vezes – uma delas, com o iluminador dos shows do Alice Cooper – e acabou presa na Suécia por tráfico de LSD. Foi apenas aos 36 anos que ela começou a meditar. E nunca mais parou. Nessa entrevista, ela fala sobre os caminhos internos para a felicidade, sobre autoconhecimento e transcendência, e sobre como não recomenda mais o uso de drogas para se aproximar de Deus.
 
Quais são as maiores diferenças no conceito de felicidade na filosofia ocidental e na oriental?
​A palavra felicidade, em português, tem sua origem nas palavras “fertil” e “frutífero”. O que frutifica nos faz bem. Plantas, árvores, ideias, filosofias, trabalho, propostas, casamento e assim por diante – todos esses elementos podem deixar alguém feliz. Tanto no Oriente como no Ocidente, seres humanos – se não despertarem para a mente suprema – podem ser manipulados ou podem acabar manipulando outras pessoas em propósitos egoicos, que só atendem a si mesmas. Eu sinto que sair do eu auto-centrado e se dedicar ao Eu maior é a própria felicidade – e isso tanto no Ocidente quanto no Oriente. Talvez os métodos educacionais sejam diversos: o Ocidente sempre foi mais centrado no eu individual do que o Oriente, que costuma considerar a coletividade em primeiro lugar. Mas isso não quer dizer que um é melhor do que o outro. Não se iluda, tanto no Oriente quanto no Ocidente, a maioria das pessoas atualmente se desgasta em preocupações relacionadas a bens materiais apenas e, quase nunca, encontram a plenitude do Eu Maior.​
 
Por que, na sua opinião, tantas pessoas procuram o zen-budismo para alcançar uma vida mais “plena”? Qual é o principal apelo dessa filosofia?
​A prática essencial do Zen é a meditação sentada, o conhecer o nosso próprio Eu, ao mesmo tempo em que esquecemos do eu. É a prática de deixar-se iluminar por tudo que existe. Perceber que estamos conectados a toda vida da Terra. Comunhão e encontro com a Verdade​ e o Caminho.​ E isso tem um grande apelo.
 
Por que, como você acabou de dizer, as pessoas se preocupam tanto com bens materiais? Na sua opinião, por que confundem felicidade com prosperidade financeira?
​Porque há pobreza, carência, miséria, desnutrição, fome. Se as necessidades básicas de sobrevivência não forem atendidas, não somos capazes de nem mesmo orar. Isso é universal. O resultado dessas lógica é que acabamos nos prendendo a essa etapa de auto sustentabilidade e muitas vezes nem percebemos que já estamos com as necessidades básicas atendidas e ainda falta alguma coisa. Tentamos preencher com novelas, programas, amigos, bares, internet, mas continua faltando. Algumas pessoas procuram o caminho do auto conhecimento, que é o conhecimento da vida, da sacralidade da existência, da rede de causas, condições e efeitos. Algumas pessoas procuram pela compreensão do significado da existência. Outras apenas vivem​ ​se distraindo das questões básicas da mente humana, querendo apenas rir, se divertir. Isso faz com que muitas pessoas sofram com essa situação, por não penetrarem no sentido mais íntimo do ser.​
 
Preocupar-se com felicidade é uma noção válida? Você se preocupa em ser mais feliz?
​Preocupar-se nunca é válido. Ocupar-se sim. Ocupar-se em fazer o seu melhor a cada instante e despertar para a mente de sabedoria perfeita é o caminho do Nirvana, é a felicidade verdadeira. Então, pratico os ensinamentos de Buda, sem me preocupar, mas me ocupando com a verdade e esse caminho.​
 
Você fala muito da violência que existe ao nosso redor. De onde ela vem? Como ela interfere na nossa felicidade?
A violência existe. Seu oposto, a não-violência também. Dentro e fora de cada ser humano. Quando somos capazes de transformar a raiva em compaixão, tudo cessa. Quando abandonamos um “eu” que precisa ser defendido, que não pode ser magoado​ ​e assim por diante, percebemos que estamos muito além das provocações internas e externas. Mas só conseguimos praticar isso com prática incessante.​ Certa feita, Sua Santidade o XIV Dalailama, disse algo como: “Compaixão nem sempre é visceral. Temos de utilizar a mente para desenvolver a capacidade de compreender a quem nos ofende ou provoca.” Isso tem a ver com as conexões neurais. Todos nós nascemos com todos os neurônios possíveis, mas, se não os estimularmos, eles não se conectam. Se formos treinados a fazer conexões neurais de violência, briga, raiva, rancor, temor e assim por diante, essa trilha se torna uma auto-estrada, uma rodovia. Para fazer novas conexões temos de nos esforçar a conectar com amor, compreensão, ternura, assertividade, destemor e assim por diante.
 
Você teve diversas profissões antes de se tornar monja (inclusive jornalista como nós). O que diria que tirou de cada uma delas?
​Experiências, questionamentos. Fui repórter do Jornal da Tarde, da editoria de Geral. Isso significa que eu cobria todos os assuntos possíveis por todo o Brasil. Foi uma época de um despertar claro e profundo sobre valores diversos em vários níveis sociais. E de conhecer os seres humanos – dos mais ricos e poderosos aos mais pobres e humildes – procurando a felicidade e a estabilidade física, material, psíquica, espiritual. Depois fui ser professora de Inglês e com isso passei a conhecer melhor a maneira de pensar dos povos de lingua inglesa. É tudo diferente de quem fala português: a lógica, a filosofia, a maneira de ser. Fui também secretária do Banco do Brasil, em Los Angeles, e pude cortar quaisquer resquícios de discriminação preconceituosa que tinha quanto ao fato de ser secretária. Percebi a importância das secretárias nas empresas. Gerentes, diretores não seriam capazes de atuar sem suas/seus secretários. Um governo não funciona sem suas secretarias. Assim, em cada oportunidade pude aprender e transformar conceitos deludidos em experiência pura.
 
Em que momento – e qual foi a importância deste momento – que você percebeu que deveria se tornar monja?
​Passei a meditar de forma regular, em Los Angeles, onde residia. Percebi que a meditação Zen era o Caminho que eu queria dar ao que restava de minha vida. Tinha 36 anos de idade.​
 
Você disse em algumas entrevistas que tomou LSD e chegou a experiências religiosas intensas com ele. Você acha que as drogas são uma forma de transcendência? Vê alguma validade nisso?
​Tudo depende de quem as usa e com que propósito. Na minha juventude, eu procurava por Deus. Não procurava por sexo, diversão, brincadeira ou prazer de qualquer espécie mundana. Hoje eu não recomendo uso de drogas​ ​ou de qualquer tipo de substância para alcançar a transcendência. Basta respirar conscientemente. Basta sentar em silêncio, na postura correta, para acessar o Eu além do eu. Podemos ter o encontro com a Natureza Buda – que é talvez o que tradições monoteístas chamam de Deus – através do silêncio, da meditação profunda e da respiração tranquila.​ Mas isso requer persistência, paciência e entrega, e deve ser através de orientação de pessoas que tiveram a experiência sagrada. Não é algo que se possa tentar sozinha. É preciso seguir determinados procedimentos para esse encontro. Da mesma maneira, se combinarmos um encontro com alguém teremos de saber o local, o horário e o caminho para chegar até lá. É preciso ter uma rota. As tradições meditativas, religiosas, espirituais têm sistemas muito antigos e hábeis para conduzir os seres humanos ao verdadeiro Encontro. É preciso escolher uma tradição e seguir seus ensinamentos, sem desistir quando os obstáculos surgirem.
 
Felicidade é um valor importante? Há outros mais importantes?
​Felicidade, paz, Nirvana, quietude adquirida através da sabedoria perfeita, clareza, transparência, ética, prática incessante da vida iluminada.​
 
Você se considera uma pessoa feliz?
​Sou feliz.